É evidente que a China, através do chamado soft power, vem conquistando os corações e mentes da população mundial, concorrendo com os Estados Unidos e outros países capazes de exercer tamanha influência. No entanto, essa iniciativa do setor público, caracterizada pela centralização e racionalidade dos investimentos, fundido ao privado, capaz de dinamizar os processos, é multifacetada. Além de esse soft power se manifestar, por exemplo, no futebol e na abertura para intercambistas, vem dando as caras agora no mercado audiovisual chinês. Por isso, essa surpreendente expansão deve transformar gradualmente o mundo através de uma futura presença cultural quase universal.

 

A maior companhia de cinema chinesa é a Imax.

 

A partir deste ano o mercado audiovisual chinês se tornará líder em animes

 

 

Por crescer demais no streaming de animes, previsões indicam que, ao longo deste ano, a China deve passar o lucro que o Japão, líder do ramo, obtém anualmente. Atualmente, quase metade do lucro bruto em licenças de streaming do mercado japonês vem da China. Também, pensando na cultura chinesa, os animes tanto japoneses como deles mesmos estão cada vez mais populares no país.

O Nikkei Asian Review relata que o mercado audiovisual chinês, voltado para animes, está projetado para lucrar 150 bilhões de yuans (21,7 bilhões de dólares) somente neste ano, o que é um valor três vezes maior do que o lucro arrecadado em 2010 e maior do que o do mercado japonês no ramo, constituindo um ramo de investimentos tão bilionário quanto o do futebol chinês. De acordo com os dados de 2015 da Associação de Animações Japonesas, compradores chineses representam mais da metade do aumento anual na receita da indústria gerada pela venda de licenças de anime no exterior.

Com esse crescimento constante, o mercado audiovisual chinês começa a virar: ao invés do Japão usar mão de obra de estúdios chineses para produzir seus animes, são os chineses que estão usando estúdios japoneses para realizar seus trabalhos. Um exemplo é o estúdio Emon, que foi criado no Japão e tem funcionários japoneses, mas seu dono é Li Haolin, um jovem animador chinês de apenas 30 anos. Li Haolin também é dono da empresa Haoliners Animation League, situada em Xangai, e é a principal mandante do estúdio Emon, que cresce anualmente. E vale lembrar que a Haoliners foi fundada em 2013, o que indica como são relativamente recentes esses investimentos no setor do mercado audiovisual chinês. Outro exemplo importante é a empresa Tencent, que tem um catálogo de webcomics chinesas que deseja transformar em animes.

O que tornou o mercado chinês mais propício para o investimento em animes foram as recentes leis antipirataria. Com isso, muitos investidores se voltaram para fontes oficiais e se tornou viável a compra de licenças de animes no país. Também, a concorrência entre os 2,5 mil canais de televisão chineses está elevando preços de investimentos, levando episódios de animes a serem vendidos por até 100 mil dólares.

 

A produção de filmes grandiosos e caros

O cinema chinês começa na década de 20 e seu primeiro filme, ou o mais antigo conservado até hoje, lançado em 1922, chama-se “O Romance de um Vendedor de Frutas”, do diretor Shichuan Zhang. A partir disso, cineastas e cinéfilos reconhecem que há seis gerações no cinema chinês ao longo da história do país. Cada geração representa um momento da história chinesa, mas o ponto crucial, onde houve uma ascensão e desenvolvimento técnico, se deu em 1956, quando foi aberta a Academia de Cinema de Pequim, na quarta geração da sétima arte nacional. Neste momento a produção de filmes aumentou e muitos cineastas foram mandados para estudar cinema em Moscou, na URSS, que era reconhecida por abrigar os maiores desenvolvedores dessa arte (exemplos são Eisenstein e Dziga Vertov, que foram pioneiros em técnicas cinematográficas utilizadas até hoje). Assim, os chineses obtiveram influências dos mestres do ramo e tiveram uma ascensão notável.

Atualmente, na sexta geração, marcada pela consonante grandeza econômica chinesa, o cinema da nação vem se tornando uma potência cinematográfica, apresentando uma qualidade cada vez maior nos últimos anos, graças ao aumento exponencial nos investimentos feitos tanto pelo governo quanto por instituições privadas no cinema da China. Também, a proximidade com Hollywood propicia uma relação produtiva em que os Estados Unidos e a China se unem para desenvolver filmes.

 

A Grande Muralha é o filme mais caro da história da China.

 

A mais recente produção do diretor chinês Zhang Yimou foi considerada o filme mais caro da história do cinema chinês. A Grande Muralha, filme sino-americano protagonizado pelo norte-americano Matt Damon, arrecadou 64 milhões de euros em sua estreia. O filme custou 140 milhões de euros. Esse exemplo comprova que o mercado audiovisual chinês está em consonância com o surpreendente crescimento da segunda maior economia do mundo.

 

Além de grande produtora, a China é uma grande consumidora de filmes

Pela grande população, a China é atualmente o mercado mais visado pela indústria norte-americana de cinema, pois, de acordo com alguns dados, é o segundo maior mercado de cinema do mundo (tende a se transformar no maior de todos em 2018) e vem se transformando numa “nação de cinéfilos”, isto é, sua população investe boa parte do dinheiro que tem em conteúdos cinematográficos, sem poder, no entanto, recorrer à pirataria, devido às fortes leis antipirataria estabelecidas recentemente. Desse modo, os “cinemas” ainda são um forte atrativo de lazer, trazendo grandes lucros para o país através desse ramo. Um efeito disso é o fato de, em 2015, mais de 22 salas de cinema terem sido abertas por dia por todo o território nacional. O mercado audiovisual chinês, portanto, é essencial e leva a indústria cinematográfica a adaptar-se aos gostos do país.

 

The Mermaid é considerado o filme mais assistido da história da China.

 

O filme Velozes e Furiosos 7, por exemplo, conseguiu atingir a marca de 383 milhões de dólares, mais do que foi ganho nas bilheterias americanas e do Canadá combinadas (351 millhões), no mesmo período do início de junho, e se tornou temporariamente campeão de bilheteria da China. Neste ano, o filme The Mermaid passou a ser considerado “o mais assistido da história da China”, faturando 3,3 bilhões de yuans (O equivalente a US$ 482 milhões).

Entretanto, na China há um órgão responsável pelo controle do que deve ser exibido em seus cinemas e do que não deve. Trata-se da Administração Estatal de Radio, Filme, e Televisão (Ou SARFT que, em inglês, significa State Administration of Radio Film and Television). O órgão seleciona conteúdos a serem mostrados nas rádios e na televisão, em geral. Exemplos de filmes proibidos na China pela censura são 007: Skyfall e Homem de Ferro 3. Apesar disso, as perspectivas de crescimento do cinema chinês são enormes.

Esse contexto de censura leva os produtores de filmes estrangeiros a respeitarem a cultura chinesa ao retratá-la em filmes pois, assim, tendem a lucrar mais ao venderem suas obras para o país. Holywood se adaptou a tal contexto, e, graças ao mercado audiovisual chinês, que é gigantesco, os estúdios de lá andam se adaptando tanto ao gosto da população chinesa como às exigências do governo da República Popular da China.

 

Serviços de streaming são a mina de ouro do mercado audiovisual chinês

A China possui 40% dos internautas de todo o globo, tendo mais de 500 milhões de internautas, superando números de populações inteiras de muitos países em uma só classificação específica – e esse número tende a crescer. Os líderes de mercado nesse ramo são todos chineses. No segmento de vídeo os líderes são:

  • Baidu – Um dos maiores motores de busca do mundo e o dominante na República Popular da China, ultrapassando inclusive o Google e o Yahoo!. Também oferece outros serviços, entre eles, o de streaming.
  • Alibaba – Trata-se de um grupo de empresas com sede em Hangzhou voltadas ao e-commerce na internet.
  • Tencent – É o maior portal de serviços de internet da China.

O modelo de vídeo on demand, isto é, de serviços de streaming, passa por um processo interessante de mudança recente de AVOD (gratuito baseado em publicidade – como o Youtube) para SVOD/TVOD (baseado em assinatura ou aluguel-compra – como a Netflix) na China.  As marcas têm no digital branded importante atuação, estando presentes, inclusive, em eventos como MipChina, que é um evento realizado pelos mesmos organizadores do MipCome do MipTV – tradicionais no mercado audiovisual chinês. Vale ressaltar também que aproximadamente 50% do bolo publicitário chinês vem do ramo digital.

 

E você? Já estava por dentro dessa revolução no mercado audiovisual chinês? Aqui do Brasil mesmo é possível entrar em contato com esses conteúdos e se divertir, mas, ainda assim, é válido para os interessados se aproximar disso para ver de perto. Apenas busque seu visto chinês e aproveite!

 

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Por Rafael Queiroz

 

Fontes: Intoxianime, My Anime List, Nikkei Asian Review, China Link Trading, G1, Meio e Mensagem

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